(LFV está se tornando um ateu militante ?)
Aprendi a gostar de ler com cronistas como Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade. Os textos curtos, enfocando o lado pitoresco do dia-a-dia, sempre me fascinaram e me fizeram apreciar o hábito da leitura.
Conheci as crônicas de Luiz Fernando Veríssimo mais tarde, até porque seus temas sempre orbitaram o mundo adulto: a vida doméstica, os relacionamentos e a política. Tudo tratado com um humor ácido e ironia fina, mas também com uma indisfarçável amargura e um onipresente pessimismo fundamental.
O próprio Veríssimo já disse que o humorista é um "decepcionado", mas eu diria que é um decepcionado que não têm lá muitas pretensões. O humorista quer fazer graça e assistir de longe, como um tio resmungão que reclama do almoço.
Eventualmente me deparo com algum escrito de LFV num jornal ou mesmo na internet e... Puxa, parece que está em curso um processo de rabugice... Além do pessimismo travestido de ironia fina, ele se afunda no ateísmo militante, abandonando a discrição de outrora. Parece que o circunspecto escritor agora aponta seu arsenal metafórico contra a crença em Deus, tal qual um Woody Allen brasileiro. Aliás, quanto ao diretor norte-americano, não se poderia esperar outra coisa que não um ateísmo debochado, haja vista sua estranha noção de moralidade e dignidade (afinal, ele casou com a própria filha adotiva e não viu nada de errado nisso). Quem quer encontrar Deus assim?.
Mas LFV não tem esqueletos no armário (acho) e sua descrença creio que aé fruto da mesma causa de outros escritores/ficcionistas/ateus/, como o famigerado português José Saramago: uma voluntária e contínua apatia espiritual.
Não, não invoquem a "lógica racional" por suas crenças (ou falta delas ); LFV, como bom literato e pensador, sabe que não há, pela limitada lógica humana, razão palpável nem para crer e nem para descrer em Deus. O agnosticismo seria uma opção. Equivocada, mas honesta.
O que há , é certo, é o testemunho irrefutável da criação, numa Revelação Geral (1) inconteste. Esta sim é visível, palpável e sensível; e o ateísmo não oferece explicação melhor do que uma fantástica “geração espontânea”: o nada gerando o tudo. O que é tecnicamente algo sobrenatural.
Já a fé cristã oferece como explicação (também sobrenatural para nossos padrões), um Fantástico Criador Amoroso. É d'Ele que LFV foge.
LFV, até o momento, optou em crer na geração espontânea e no acaso da existência, e a amargura desta escolha e de suas consequências têm contaminado seus textos numa escala melancólica.
Continuo gostando de LFV, seus recursos e seu estilo. Mas lamento por sua triste visão da existência. Entendo que a decepção com o mundo é algo positivo para quem busca a Verdade com “V” maiúsculo. Não há como ser amigo do mundo e amigo de Deus (Tiago 4:4). A decepção tem que ser ponto de partida de uma busca, não de chegada.
Espero sinceramente que LFV tenha tempo e humildade suficientes para lançar-se nesta busca, pois ele me parece agora inimigo tanto do mundo quando de Deus. Que para essa busca ele renuncie à apatia e ao conformismo espirituais, disfarçados de racionalismo e mordacidade.
Chega de nadar no raso (apesar de, como ele mesmo diz, lá "os peixes serem gordos").
Levante-se Veríssimo !
“Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará.” (Efésios 5.14)
[F.R.Luz}
(1)- Revelação Geral é a expressão da teologia cristã utilizada para designar a revelação de Deus a toda a humanidade por meio da obra da criação, ou seja: Deus Se revelou à humanidade porque vemos o que foi por Ele criado. Contrasta com a revelação especial, que se trata de Jesus Cristo e, em segundo nível, da Bíblia.
