19 de set. de 2014

.É a Economia...


"É a economia, estúpido" 

A famosa expressão acima, cunhada por James Carville, foi um dos slogans da campanha presidencial de Bill Clinton contra George Bush nas eleições estadunidenses de 1992.

Ela me vem à mente sempre que aparecem suspeitas de arranjos fraudulentos no futebol profissional.

A frase traduz uma verdade que nos é eventualmente incômoda: a maioria das decisões tem fundamento econômico. Mais evidentemente na política e nos negócios e de modo mais recatado na vida privada...

Futebol é indústria de entretenimento, então amigos, a resposta para quase todas as questões “é a economia”. Se ela vai bem, o futebol vai bem.

A Argentina está em crise econômica? Chovem “hermanos” nos times brasileiros. Alemanha e Inglaterra se salvam da crise europeia? Seus clubes são os mais fortes (exceção digna de nota é a Espanha). A China é dona do capitalismo mundial? Aos poucos estão importando nossos jogadores.

E no Brasil? O “eixo” dominante do futebol é, não por acaso, composto pelos estados que – tradicionalmente, e não necessariamente de fato - são as “locomotivas” da economia nacional. O Paraná é o próximo da fila, mas a fila não anda faz tempo...

E como vai a economia da indústria do futebol nativo? Estádios cheios? Clubes ricos? Não, definitivamente não. Nem a Copa do Mundo empolgou (ainda mais com o “mineirazo” do 7 a 1).

Alguns estádios melhoraram, mas o nível dos “espetáculos” não justifica o absurdo aumento dos ingressos. Querem afastar os pobres das “Arenas”. 

O fato é que tudo está ficando muito caro, e a relação custo/benefício já não está favorável aos torcedores que fazem questão de assistir ao vivo seus times jogarem. Senão vejamos: Ingresso: 90 reais; estacionamento: 20 reais; lanche nas péssimas lanchonetes dos estádios: 15 reais; Total: 125 reais para uma pessoa. – “Ah, mas o sócio paga menos”. Será? A diferença é que ele paga mensalmente, no mínimo uns 90 reais, mas só vai a, no máximo, dois/três jogos/mês. A diferença não é tanta assim.

Comparemos, por exemplo, com um cinema 3D: você escolhe o filme, sabe que não vai presenciar nem se envolver com brigas de torcida e confusões com a polícia, pode levar sua namorada, filhos, mãe e avó com cadeira de rodas. O ambiente é climatizado e seguro, depois você pode escolher o que vai comer no lanche. Custo ? Ingresso: 26 reais, estacionamento 8 reais, lanche 15 reais. Total: uns 49 reais por pessoa. Diferença: 76 reais.

Claro, a comparação pode ser mais sofisticada. Quanto custa um show no Teatro Positivo? Então nos referimos a cifras maiores, coisa de 300-400 reais, no mínimo. Mas aí entra a questão do espetáculo incomum. Não é toda semana que o tipo de artista que faz apresentações no Teatro Positivo vem a Curitiba. É coisa de uma vez por ano, a “vibe” é outra.

Bom, digo tudo isso para fundamentar uma profecia sobre o futebol profissional em nossa chuvosa Curitiba. E tomara que eu esteja errado: independentemente da questão do dinheiro público investido no faraônico estádio do A.Paranaense, infelizmente ele será deficitário, pois não temos aqui o apelo de uma Champions League para manter os 40 e tantos mil lugares ocupados em todos os jogos. Acho que nem 20 mil abnegados serão constantes. A Libertadores é um evento esporádico, as decisões nacionais idem.

- “Ah, mas e os shows que e Arena irá abrigar?”. Bom, seria necessário um U2 a cada seis meses. Além da concorrência em custo com outros espaços como a Pedreira, o tal Bioparque, o Expotrade Pinhais e o próprio estádio Durival de Brito. É a economia, estúpido!

Minha opinião é que um estádio, ou melhor, uma “Arena Multiuso” em Curitiba só seria viável se os três clubes da capital a usassem. E olha lá !

Pessimismo? Inveja verde? Não. É a economia, estúpido!

Vejamos exemplos recentes: o próprio Maracanã, da capital do eixo, está ocioso. Lembram do Engenhão, feito às pressas para o Panamericano? Arrendado ao Botafogo, está até hoje interditado por conta de problemas sérios na cobertura. Nem vale a pena lembrar dos estádios e instalações feitos para a Copa da África do Sul ou Olimpíadas de Pequim, ou do óbvio destino das “Arenas” Amazônia, Pantanal e Nacional... Só prejuízo.

O cenário só piora se considerarmos que o futebol brasileiro caminha a passos largos para ser a terceira divisão mundial. Já somos meros fornecedores dos clubes europeus e, recentemente, asiáticos.

Aquela humilhação que o Santos sofreu do Barcelona na final do mundial foi só uma fiel ilustração da realidade. Depois, o Atlético Mineiro perdeu para o Raja Casablanca e a Copa do Mundo...

Admitamos: fora a seleção (apesar dos 7a 1), somos “potencias mundiais” unicamente relevantes no nosso quintal latino americano.

Aqui no Paraná então... Ainda lutamos para vender jogadores diretamente ao exterior, sem o aval dos “grandes” do eixo.

Nossa realidade é o Campeonato Paranaense, sem carinho nenhum chamado de “ruralzão”, Copa do Brasil (se der sorte, podemos chegar lá) e Brasileirão (campeonato longo, que privilegia quem tem elenco forte, ou seja: dinheiro). Podemos sonhar? Sim, mas contar com a realização dos sonhos para pagar dívidas não costuma funcionar.

Nossos “managers” do futebol apostaram na elitização do público como saída para a crise. Não esperavam que o público “de elite” exige “espetáculos de elite”. Ainda mais com jogos europeus ao alcance de um PPV na tela HD de casa. Haja apelo à paixão clubística, haja coração amigo !

A economia nacional não tem perspectivas boas. Adivinhem quem vai junto para baixo? Pois é, acho que o futebol brasileiro, como indústria de entretenimento, está em queda livre. Num processo traumático, será necessária uma reengenharia para que sobreviva. Sim, já estamos falando em sobrevivência. É a economia.

Opções de ingressos mais baratos? Diminuição de custos (salários, inclusive?) Competições regionais fortes? Venda de clubes e competições para grandes corporações mundiais de entretenimento ? Não sei. Algo ocorrerá quando o Titanic do futebol nacional começar a emborcar para o lado. Salve-se quem puder.

É a economia, estúpido!

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