12 de mar. de 2014

.Os dois cestos do demônio.


 Fosse eu um demônio comissionado a atrapalhar a humanidade, usaria um método engenhosamente perverso: repartiria os valores fundamentais que levam à construção de uma sociedade feliz em dois cestos. Não mais do que dois.

Num cesto, por exemplo, a valorização da família, o incondicional direito à vida, a busca pela paz social, a afirmação do trabalho como motor do progresso, o empenho na produção de riquezas e o respeito às ambições íntimas. No outro, o amparo aos caídos, o desenvolvimento sustentável, a indignação com a miséria, a luta contra as desigualdades artificiais e a aceitação das diferenças naturais e a luta por mudanças para melhor. Tudo fundamentada num agudo senso de solidariedade.

Feita a partição, meu segundo passo seria convencer as gentes que somente um cesto deveria ser escolhido para se chegar à justiça e ao bem estar comum. Sim, tão somente um. E mais: com base num arcabouço teórico ambíguo, induziria o convencimento de que tudo o que não estivesse no cesto escolhido pelo indivíduo, seria para ele maldito, pois fatalmente incompatível com os “valores certos”. Em síntese: "- o meu cesto é o certo, e o seu cesto é o errado".
Entenderam minha estratégia? Eu semearia o caos, fazendo com que valores harmonizáveis e complementares parecessem indiscutivelmente antagônicos.
Seria uma questão de (pouco) tempo para que os sujeitos que decidiram por um dos cestos, odiassem os que escolheram o outro (o ser humano é previsível).
Então, o terreno estaria preparado para o meu golpe de mestre: em nome da "liberdade", que é um valor fundamental ambicionado por ambos os grupos, eu ardilosamente acrescentaria em cada um dos cestos, padrões agressivos da dignidade humana,mas com um verniz "libertário", como se fossem parte do conjunto de ideais "certos", portanto irrenunciáveis.
Exemplo? A defesa do aborto e das drogas, a perseguição às religiões, o relativismo moral, a relativização dos excessos, o preconceito, o elitismo, a exploração do semelhante, a aversão às mudanças, a segregação por classes, o egoísmo social e a radical justificação dos meios pelos fins.
Mas sempre em nome da "liberdade".
Assim, os dois grupos se atacariam mutuamente, explorando justamente as máculas do cesto alheio [falácia lógica tu quoque (você também)]
Nunca se faria menção a valores construtivos que não fossem os próprios. Jamais ! Pois "eles outros" são inimigos. Entenderam? Os valores edificantes ficariam ocultos nos dois cestos, relegados ao segundo plano.

Para a receita dar certo, eu inculcaria nas pessoas que a solução para a construção de uma sociedade justa e próspera estaria plenamente contida no "seu" cesto, e que a mera simpatia por algo do "outro lado" seria tida como uma traição à totalidade do “nosso” cesto. [falácia lógica do espantalho]

Imprescindível que todo indivíduo – eu disse todo – que atuasse no plano social, fosse na primeira oportunidade, estigmatizado como pertencente ao ideário do cesto “A” ou “B”.
Igualmente importante seria precaver-se contra a grave eventualidade de alguém querer desmontar o esquema concebendo um inadmissível "terceiro cesto" com o melhor dos dois por mim criados. A reação a esse absurdo teria que ser imediata, esmagadora e implacável: provocar os partidários dos dois cestos originais a exterminar a honra do infeliz metido a espertalhão, acusando-o de pertencer ao "outro lado" e estar empenhado em sabotar o "lado certo".
Consolidadas as posições e formatados os radicais, seria muito fácil manter um infindável conflito, pois o ser humano detesta ser confrontado, mesmo quando sabe estar equivocado. Ninguém quer sucumbir diante dos “outros”.

Não faltaria material humano para a luta, pois seriam óbvios os sinais de decadência da sociedade que adviria. Sempre por incontestável culpa “do outro” e de seus ideiais, num permanente estímulo à luta no "lado certo" das trincheiras. As hostes em conflito seriam plurais, encerrando desde jovens impulsivos até idosos sem sabedoria.

Notaram que eu disse “trincheira”? Sim, porque eu conseguiria transformar a busca pela paz e bem estar social em uma guerra. Guerra mesmo, com mortes e tudo. Os soldados trariam estampadas em suas testas a expressão "TEMOS CERTEZAS ABSOLUTAS".
Ninguém perceberia que nesta guerra só eu (o demônio) seria o vencedor perene. Ocupadas em digladiar-se, as pessoas não dariam importância ao fato de que os bons valores de ambos os cestos estariam sempre encobertos, ameaçados e instáveis.

Insegurança é minha divisa.
Conflito e competição são meus objetivos.
Nunca colaboração. Nunca paz. Nunca harmonia.
Sempre uma civilização mutilada e imperfeita.
Seria assim um demônio satisfeito.

[2014]